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Sep 17, 2014

Carta 3 - Marcel

Querido Marcel,

 Ando ouvindo muito Lana e fumando mais cigarros do que eu deveria, por isso estou com uma tosse e uma raiva que não passam nunca. Meu querido amigo, você sabe como é inédito esse sentimento que tem me consumido, mas me explique você o porquê de tudo isso. Sei que você já odiou o mundo e tudo o mais e digamos, aliás, mais do que qualquer ser que tocou essa terra e agora, veja, você mesmo se transfigurou magicamente em um raio vermelho e flamejante, o próprio fogo, poderoso e certeiro, e, pelos deuses, como és maravilhoso!

Sabe aquelas tardes frias em que sentávamos conversando como o absurdo da vida nos consumia em dor e prazer, achando nossas vidas tão estranhas nesse amontoado de gente cinza e nada mais que cinza, na verdade tudo tão absolutamente cinza que me nauseava imperceptivelmente… queria voltar naqueles tempos, acender um cigarro, beber um gole do meu café bem quente e te beijar a boca querendo na verdade te beijar inteiro, completamente, com todas minhas forças, querendo quem sabe com isso talvez desperadamente beijar tua alma, agarrá-la com minhas mãos geladas e dizer secretamente, de espírito para espírito,  que, deus, tu eras belo, tu eras magnífico e nada em ti era minimamente cinza ou entediante! Devia ter feito isso antes ou depois de você me contar mais uma das suas histórias tão ordinariamente singelas que meu coração traduzia para mim um, sei lá, algo como que tuas palavras eram como rosas, belas e cheias de espinhos e então, depois do café terminado e o cinzeiro cheio, eu me levantava e ia andando pelas ruas sujas do centro assim, rasgado por dentro, cheio de arranhões e, ainda sim, plenamente, euforicamente feliz por ter visto todo aquele jardim.

                Tenho esse amor sincero por ti e por alguns de meus amigos, do mais, o resto do mundo tem me causado uma náusea digamos que entediante e acinzentada, e tão entediante e acinzentada a ponto de me deixar irado e, me conhecendo como me conheces, sabes que não sei lidar com o ódio porque nunca o senti. Por isso agora sento aqui, isolado, como se tivesse passado por um tratamento Ludovico, aterrorizado e, portanto, terrivelmente só, para te escrever e tentar remontar, mesmo que em uma imagem mental, aqueles tempos em que sentávamos juntos depois do almoço. Talvez esse seja o único jeito de confessar minha alma, como um devoto-ser-dos-subúrbios e confesso para ti e para ti somente porque sei que somente tu, as prostitutas e os velhos e talvez Jack Kerouac me compreenderiam. Sinto-me incapaz de amar, mesmo amando exageradamente todos e todas as coisas, sinto-me inteiramente incapaz de amar. Ando indisposto a tal ponto com a humanidade que tenho vontade de, todas as manhãs, ir até a padaria bem cedo buscar o pão da primeira fornada do dia só para olhar profundamente para o padeiro e ele então saber, no fundo de si, mesmo que ele mesmo desconheça isso, e sem trocar uma palavra sequer, que existe algo terrivelmente errado com o mundo. E com isso, a vida para ele não poderá jamais ser a mesma, virá a insônia e, quando ele finalmente adormecer, já será hora de levantar e sua indisposição o levará a um caminho sem volta de atraso cada vez maior nas fornadas dos pães e, assim, veja, sua vida estará arruinada em pouco tempo. E, depois da padaria, eu passaria na velha banca da esquina para comprar o jornal e, quando o dono da banca me desse bom dia, eu não responderia, e quando ele perguntasse sobre o resultado do jogo de ontem, eu diria que não gosto de futebol e, assim, ele passaria o resto do dia, da semana, dos anos pensando como a única diversão de sua vida, depois que sua mulher o deixou após anos sem conseguir ter filhos e com a morte de sua mãe no início de maio, o que o deixou terrivelmente só, era inútil e sua vida era um fracasso, e ele morreria triste e só.

Mas talvez tudo isso seja apenas um ódio de mim mesmo e dessa incapacidade de ser simples, de ter um trabalho, uma esposa e filhos, e amar incondicionalmente alguém de verdade. Mas sou terrivelmente incapaz de amar. Talvez eu esteja de fato em busca da dor e da loucura, como uma busca mesmo que incrédula por fugir de tudo que é entediante e cinza, mas às vezes eu penso que talvez todos sejam assim, como nós, e o fato de se ocuparem com tarefas vazias é apenas a maneira mais prática de fugir dessas questões metafísicas completamente toscas e inúteis e, em vez de se tornarem um Camus, um Mozart, um Rembrandt ou talvez Alvares de Azevedo, preferem apenas tomar a cada manhã um comprimido de antidepressivo e ir para o trabalho.

                Crê, Marcel, que até a natureza me irrita, me parece de mármore, artificial. As estátuas e os bancos das praças me exalam mais vivacidade do que qualquer árvore. Tenho tentado extrair significados de coisas sem poesia alguma e isso tem me parecido muito mais digno do que escrever sobre musas ou sentimentos bucólicos. Tenho mais vontade de transar com os canos do esgoto do que com a bela mulher virgem dos romances. Parei forçosamente de beber e sou incapaz de amar. Outro dia me irritei profundamente e quase me desiludi para sempre com a humanidade ao conhecer um garoto dois anos mais jovem que eu que simplesmente nada sabia da vida além dos valores hipócritas e rasos que seus pais o haviam ensinado e que seus amigos compartilhavam. É claro que seu sonho era mudar o mundo – de quem não é - mas pude ver, pelo jeito que ele andava e falava, que a vida o levaria de opiniões conservadoras a uma busca ambiciosa por poder e dinheiro, e eu sabia que ele jamais seria capaz de, sozinho, pensar profundamente seja lá sobre o que for, sempre teria respostas prontas, rápidas e treinadas, nunca uma opinião crítica ou uma real reflexão, e jamais abriria um livro de filosofia ou de sociologia nem se emocionaria com a arte ou com os noticiários – não que isso seja, de fato, necessário, mas ajudaria.

Mas, olhe, nesses mesmos dias eu conheci uma menina que tem o sonho de trabalhar em uma loja de óticas e isso me abalou profundamente… o quão semelhante e distante está ela de mim e de ti, tu me entendes? Todos os dias ela acorda cedo, pega o ônibus lotado para ir trabalhar em uma pequena ótica da Andradas, vendendo óculos e lentes até a noite, para então pegar o mesmo ônibus lotado para voltar para casa e me contar, humilde e verdadeira, sobre o seu dia e de como ela é apaixonada pelo seu trabalho e como espera, um dia, se tornar gerente da loja. De repente senti todo o mundo mudado novamente, como se aquela fosse a existência mais simples e maravilhosa e ao mesmo tempo misteriosa e de infinitas nuances, como se ela estivesse tão mergulhada na vida que fosse, de alguma forma, uma própria metáfora da vida manifesta para mim, como uma profecia, alguma coisa que o destino colocou ali, no meu caminho, e que me era incompreensível e desconhecido e tudo que eu queria é compreender e conhecer, mas não podia porque eu sou apenas eu e aquela era uma existência absoluta.

                Parece fazer pleno sentido, você me entende? Você me entende, Marcel? Deixarei que você reflita um pouco, sei que me compreenderás, estou certo disso. Somos catalisadores da vida. De repente, agora e assim, não me sinto mais obrigado e segurar a caneta e pedir por ajuda.

Obrigado por tudo,

Teu de coração, nem mais, nem menos que isso,

D.C.

Vanitas (nº 2), 2013.
Sep 17, 2014

Vanitas (nº 2), 2013.

Vanitas (nº1), etching, 2013.
Sep 17, 2014

Vanitas (nº1), etching, 2013.

Sem título (senta em mim), 20x15cm, 2014
Sep 17, 2014 / 1 note

Sem título (senta em mim), 20x15cm, 2014

“Tudo capaz de rachar, menos coração-fenix.”
Presente, etching and drawing, 2014
Sep 17, 2014

Tudo capaz de rachar, menos coração-fenix.

Presente, etching and drawing, 2014

Sep 17, 2014

Self-portrait, 2014

Pierrot or Jake’s tail, 2014.
Sep 7, 2014 / 1 note

Pierrot or Jake’s tail, 2014.

Untitled, 2014. David Ceccon.
Aug 22, 2014 / 2 notes

Untitled, 2014. David Ceccon.

Aug 12, 2014

Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém… Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.

Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.

Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.

(A. Tarkovsky, o pai, não o filho.)
 

what is the other side?
Jul 4, 2014

what is the other side?

Jun 25, 2014 / 4 notes

I walked on the banks of the tincan banana dock and
sat down under the huge shade of a Southern
Pacific locomotive to look at the sunset over the
box house hills and cry.
Jack Kerouac sat beside me on a busted rusty iron
pole, companion, we thought the same thoughts
of the soul, bleak and blue and sad-eyed,
surrounded by the gnarled steel roots of trees of
machinery.
The oily water on the river mirrored the red sky, sun
sank on top of final Frisco peaks, no fish in that
stream, no hermit in those mounts, just ourselves
rheumy-eyed and hungover like old bums
on the riverbank, tired and wily.
Look at the Sunflower, he said, there was a dead gray
shadow against the sky, big as a man, sitting
dry on top of a pile of ancient sawdust–
–I rushed up enchanted–it was my first sunflower,
memories of Blake–my visions–Harlem
and Hells of the Eastern rivers, bridges clanking Joes
Greasy Sandwiches, dead baby carriages, black
treadless tires forgotten and unretreaded, the
poem of the riverbank, condoms & pots, steel
knives, nothing stainless, only the dank muck
and the razor-sharp artifacts passing into the
past–
and the gray Sunflower poised against the sunset,
crackly bleak and dusty with the smut and smog
and smoke of olden locomotives in its eye–
corolla of bleary spikes pushed down and broken like
a battered crown, seeds fallen out of its face,
soon-to-be-toothless mouth of sunny air, sunrays
obliterated on its hairy head like a dried
wire spiderweb,
leaves stuck out like arms out of the stem, gestures
from the sawdust root, broke pieces of plaster
fallen out of the black twigs, a dead fly in its ear,
Unholy battered old thing you were, my sunflower O
my soul, I loved you then!
The grime was no man’s grime but death and human
locomotives,
all that dress of dust, that veil of darkened railroad
skin, that smog of cheek, that eyelid of black
mis’ry, that sooty hand or phallus or protuberance
of artificial worse-than-dirt–industrial–
modern–all that civilization spotting your
crazy golden crown–
and those blear thoughts of death and dusty loveless
eyes and ends and withered roots below, in the
home-pile of sand and sawdust, rubber dollar
bills, skin of machinery, the guts and innards
of the weeping coughing car, the empty lonely
tincans with their rusty tongues alack, what
more could I name, the smoked ashes of some
cock cigar, the cunts of wheelbarrows and the
milky breasts of cars, wornout asses out of chairs
& sphincters of dynamos–all these
entangled in your mummied roots–and you there
standing before me in the sunset, all your glory
in your form!
A perfect beauty of a sunflower! a perfect excellent
lovely sunflower existence! a sweet natural eye
to the new hip moon, woke up alive and excited
grasping in the sunset shadow sunrise golden
monthly breeze!
How many flies buzzed round you innocent of your
grime, while you cursed the heavens of the
railroad and your flower soul?
Poor dead flower? when did you forget you were a
flower? when did you look at your skin and
decide you were an impotent dirty old locomotive?
the ghost of a locomotive? the specter and
shade of a once powerful mad American locomotive?
You were never no locomotive, Sunflower, you were a
sunflower!
And you Locomotive, you are a locomotive, forget me
not!
So I grabbed up the skeleton thick sunflower and stuck
it at my side like a scepter,
and deliver my sermon to my soul, and Jack’s soul
too, and anyone who’ll listen,
–We’re not our skin of grime, we’re not our dread
bleak dusty imageless locomotive, we’re all
beautiful golden sunflowers inside, we’re blessed
by our own seed & golden hairy naked
accomplishment-bodies growing into mad black
formal sunflowers in the sunset, spied on by our
eyes under the shadow of the mad locomotive
riverbank sunset Frisco hilly tincan evening
sitdown vision.

(Sunflower Sutra – Allen Ginsberg, de Howl and other poems)

De uma série, nº 1, 2014.
Jun 25, 2014

De uma série, nº 1, 2014.

Self-Portraiture, (Autofiction), b&w digital photograph, 2014.
Jun 16, 2014 / 3 notes

Self-Portraiture, (Autofiction), b&w digital photograph, 2014.

Self-Portraiture, (Autofiction), colored digital photograph, 2014.
Jun 16, 2014 / 4 notes

Self-Portraiture, (Autofiction), colored digital photograph, 2014.

Jun 1, 2014

Carta 2 - Guilherme

Querido Guilherme,

Senti vontade de te escrever apenas hoje, e peço desculpas por não responder tuas cartas.
Está chovendo… Aquela chuva fina, que não para nunca. Me entristeci e chorei um pouco antes de sentar aqui para te escrever.  Tanto a chuva quanto Erik Satie me lembram de ti, e agora estou com os dois em meus ouvidos, Guilherme. Ou talvez devesse dizer Guilhermes? Sei que falo contigo agora, mas sempre quero me dirigir ao Guilherme que foste…
Como sinto tua falta, mesmo que mudado, e dessa meia pessoa que fomos antes de nos encontrarmos na vida. Sinto falta das noites em que bebíamos café e assistíamos qualquer filme na TV aberta porque não tínhamos um tostão para a bebida ou para ir no cinema assistir àquela retrospectiva do Kurosawa. Eu era mais feliz, e tu também, mesmo que tu discordes.
Se lembra daquela noite em que deitamos na tua cama suja de café – porque eu sempre fui estabanado , mesmo você ficando calmo demais para fazer eu me importar – e conversamos até o Sol nascer? Eu lembro do cheio de cigarro e da poluição da cidade, lembro da disposição de cada prédio na tua janela, da cor do lençol… mas não consigo me lembrar nunca do que falamos… Por quê? Sabes, isso ainda me tira o sono algumas noites…
Naquela manhã chovia como hoje. E eu fui embora pisando nas poças d’água e disse ‘boa noite’ em vez de ‘bom dia’ para o cobrador do ônibus. Por quê?
Por que, para o Guilherme que foste, tu resolveu ir pra Ohio sem me contar nada? E, para o Guilherme que és hoje, valeu a pena?
Sabes, Guilherme, outro dia vi uma foto tua no meu XP antigo, tu estavas almoçando com o Yoann Lemoine – aliás, tenho que agradecer o CD e o ingresso para o show de março, obrigado por não esquecer que sou fã dele. Vi também a foto do teu novo apartamento em New York, tenho que dizer, é bem maior do que aquele que tu alugava aqui com as gurias.
Olha, Guilherme, é difícil te dizer isso, mas eu me desfiz das passagens que tu me mandou em novembro, e sinceramente minha resposta é não, não posso ir morar contigo.
Mas, do fundo do meu coração, sinto tua falta. Ou, talvez, sinta falta da lembrança de ti. Sabes, naquele dia eu cheguei em casa e dormi quase que instantaneamente.
Depois daquele dia, nunca mais te vi.
Entenda que não te respondi nesses três anos não porque eu não te queria, mas simplesmente porque não consegui. Voltei a beber, ainda que seja o uísque mais barato do supermercado. Eu preferia quando tu era pobre, Guilherme.

Sempre teu,
D.C.

Source: http://www.recantodasletras.com.br/cartas/4829023